ENF 01.3 Ana Neri e o pioneirismo brasileiro
Bem-vindo ao Leão Concursos. Preparamos esta aula para guiar você, passo a passo, no aprendizado da figura de Ana Néri e do pioneirismo brasileiro na enfermagem. Ao longo desta lição, vamos construir juntos o entendimento da biografia, da atuação na Guerra do Paraguai, do reconhecimento imperial e do legado simbólico que ainda hoje organiza o calendário da profissão no Brasil — incluindo o Dia do Enfermeiro e o Dia do Técnico de Enfermagem.
🎯 O que você vai dominar nesta lição
Ao final deste estudo, você será capaz de identificar Ana Justina Ferreira Néri por nome completo e datas-chave, situar sua atuação na Guerra do Paraguai (1865-1870), explicar por que ela é considerada pioneira da enfermagem voluntária civil brasileira (e não a “primeira enfermeira do Brasil”, expressão tecnicamente imprecisa), descrever o reconhecimento que recebeu de D. Pedro II e identificar as principais homenagens institucionais que perpetuam seu nome — Escola de Enfermagem Anna Nery (UFRJ), Dia do Enfermeiro (12 de maio) e Dia do Técnico de Enfermagem (20 de maio).
🦁 Mensagem central
Ana Néri é a pioneira da enfermagem voluntária civil no Brasil — não por ter inaugurado a profissão (que só existiria como tal a partir de 1923), mas por ter rompido, em plena Guerra do Paraguai, a barreira que separava o cuidado leigo doméstico do cuidado organizado em hospital de campanha, abrindo o caminho que a Escola Anna Nery, quase sessenta anos depois, formalizaria como ofício de Estado.
💼 Por que isso cai em prova — e por que importa para você
Imagine a cena. Estamos em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, em agosto de 1865. Uma mulher de 51 anos, viúva há onze, recebe a notícia de que seus dois filhos mais velhos — Justiniano e Pedro Antônio, oficiais do Exército Imperial — foram mobilizados para a frente do Paraguai. Pouco depois, o irmão dela, comandante de batalhão, também é convocado. A guerra recém-começou e já se prevê que durará anos. Ana Justina Ferreira Néri faz, então, algo que mulheres da elite imperial simplesmente não fazem: escreve uma carta ao presidente da Província da Bahia, Manuel Pinto de Sousa Dantas, oferecendo seus serviços como enfermeira voluntária no front, “para acompanhar e cuidar dos filhos e dos demais soldados da Pátria, sob qualquer condição”. A carta é encaminhada ao Imperador. D. Pedro II autoriza pessoalmente. Em 8 de setembro de 1865, Ana embarca para Salvador, e logo depois para o teatro de operações.
Pare aqui. Veja o que essa cena está te mostrando antes de qualquer teoria. Ana Néri não foi à guerra como religiosa, como aconteceu durante toda a Idade Média. Não foi como profissional formada, porque não havia escola de enfermagem no Brasil. Foi como civil voluntária, com cinquenta e um anos de idade, motivada por afeto pessoal pelos filhos e pelo irmão — mas estendendo esse cuidado a todos os feridos. É um gesto que não cabe nas categorias prévias. Cuidado de filho? Sim, mas multiplicado para todos os feridos. Religiosidade? Pessoal, mas não institucional. Profissão? Não existe ainda. Por isso o termo correto é pioneira da enfermagem voluntária civil — categoria nova, que ela inaugura.
❓ Pergunta dirigida: se em 1865 não havia profissão de enfermagem regulamentada no Brasil, e quem cuidava de feridos em hospital de campanha eram religiosas ou auxiliares improvisados, qual é exatamente o “pioneirismo” de Ana Néri? Em outras palavras: o que ela fez que ninguém antes tinha feito? Guarde essa pergunta. A resposta está em três pontos — a iniciativa civil voluntária organizada, a sustentação econômica privada (Ana abriu mão dos próprios bens), e a duração — quase cinco anos no front, do início ao fim do conflito.
Esse contexto é decisivo nas provas. Bancas como Cebraspe, FGV, IBFC e Vunesp testam, com regularidade, três pontos: (i) a expressão correta para descrever Ana Néri (pioneira da enfermagem brasileira, ou da enfermagem voluntária, e não “primeira enfermeira do Brasil” como profissão); (ii) o conflito em que atuou (Guerra do Paraguai, 1865-1870, e não Guerra da Crimeia, que confunde com Florence Nightingale); e (iii) a distinção entre o Dia do Enfermeiro (12 de maio) e o Dia do Técnico de Enfermagem (20 de maio).
📚 Núcleo conceitual
Biografia em três traços
Ana Justina Ferreira Néri nasceu em 13 de dezembro de 1814, em Cachoeira, na Bahia, na então Província da Bahia do Império do Brasil. Filha de Luiza Maria das Virgens e Joaquim José Ferreira de Jesus, recebeu educação religiosa típica da elite baiana — bordados, música, leitura, doutrina cristã. Em 1837, aos 23 anos, casou-se com Isidoro Antônio Néri, oficial da Marinha do Brasil. Tiveram três filhos — Justiniano de Castro Rebelo, Pedro Antônio e Isidoro Antônio Néri Filho. O marido morreu em 1844, deixando Ana viúva aos 30 anos, com três crianças pequenas.
Durante as duas décadas seguintes, Ana se dedicou à criação dos filhos e ao cuidado de familiares enfermos. Quando a Guerra do Paraguai começou, em dezembro de 1864, dois dos filhos já eram oficiais. O terceiro também viria a ser convocado mais tarde. Foi nesse contexto que ela escreveu a carta de oferecimento.
A grafia do nome merece atenção. Em documentos da época, encontra-se “Ana Néri” e “Anna Nery” — esta última na grafia portuguesa antiga (com dois “n” e sem acento). A pessoa histórica é geralmente referida como Ana Néri (grafia atualizada). A escola e as instituições que a homenageiam — Escola de Enfermagem Anna Nery (UFRJ), Hospital Anna Nery, e algumas obras acadêmicas — preservam a grafia antiga, Anna Nery. Bancas como FGV e Cebraspe podem cobrar essa distinção.
📌 Memorize: Ana Néri = a pessoa (1814-1880). Anna Nery = a escola (1923-presente, UFRJ) e instituições homônimas. Em prova, a grafia varia conforme o objeto — leia o enunciado com atenção.
A Guerra do Paraguai (1865-1870) — atuação no front
A Guerra do Paraguai, também chamada Guerra da Tríplice Aliança, foi o maior conflito armado da história sul-americana. Opôs o Paraguai, sob Francisco Solano López, à aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai, deflagrada em dezembro de 1864 e encerrada em 1º de março de 1870 com a morte de Solano López em Cerro Corá. Estima-se que o Brasil tenha mobilizado cerca de 150 mil soldados, com mais de 50 mil mortos — números que dão a dimensão sanitária do conflito.
Ana Néri partiu de Salvador em 8 de setembro de 1865 rumo ao teatro de operações. Atuou em hospitais militares de campanha e hospitais de retaguarda em diversas localidades — Corrientes (Argentina), Humaitá (Paraguai), Assunção (capital paraguaia, ocupada pelas forças aliadas em 1869), Cerro Corá. Permaneceu no front até maio ou junho de 1870, quase cinco anos.
Suas funções incluíram:
– cuidado direto a feridos e doentes (curativos, alimentação, higiene, conforto);
– supervisão e organização de enfermarias;
– cuidado especial a feridos de cólera e tifo, doenças que mataram mais soldados que os combates;
– manutenção de um hospital de campanha próprio, financiado com recursos da família — o que é considerado o gesto mais simbólico do seu pioneirismo, porque sustentou financeiramente parte da ação assistencial;
– assistência a oficiais e soldados rasos, sem distinção de patente — fato registrado em cartas da época;
– repatriação de dois meninos órfãos paraguaios que adotou no fim da guerra, Antônio e Isabel, levando-os consigo de volta para a Bahia.
🔍 Aprofundamento: durante o conflito, Ana perdeu o filho Justiniano — morto em combate — e teve outros familiares feridos. Cuidou pessoalmente do filho Pedro Antônio, ferido em batalha, que sobreviveu. Esse detalhe biográfico é forte e cai com regularidade em prova FGV: “Ana Néri perdeu um filho na guerra e cuidou pessoalmente do outro, ferido em combate.” (Verdadeiro, registrar como verdadeiro.)
O retorno e o reconhecimento por D. Pedro II
Ana retornou ao Rio de Janeiro em maio de 1870, recebida com honras. D. Pedro II a reconheceu publicamente com homenagens significativas:
- concedeu-lhe a Medalha Geral da Campanha, honraria militar normalmente reservada a oficiais combatentes;
- concedeu-lhe a Medalha Humanitária de Primeira Classe;
- determinou pensão vitalícia, paga pela Coroa;
- conferiu-lhe o título honorífico de “Mãe dos Brasileiros”, expressão usada pelo próprio Imperador.
Esses reconhecimentos, raros para uma mulher civil no século XIX, fixaram Ana Néri como figura simbólica nacional. Note: o reconhecimento veio do Imperador (Pedro II) — não de instituição religiosa, não de academia médica, não de partido político. O reconhecimento é estatal, e isso reforça a leitura que vimos no tópico 01.2: a enfermagem brasileira tem origem fortemente vinculada ao Estado, mesmo antes de existir como profissão regulamentada.
🎯 Ponto de prova: o título honorífico de “Mãe dos Brasileiros”, atribuído por D. Pedro II, é detalhe específico que cai em prova Cebraspe e Vunesp. Memorize a expressão.
Morte e sepultamento
Ana Néri viveu mais dez anos após o retorno, em sua casa no Rio de Janeiro. Morreu em 20 de maio de 1880, aos 65 anos, em decorrência de complicações cardíacas. Foi sepultada inicialmente no Cemitério de São Francisco Xavier (Rio de Janeiro). Em 2009, ano do bicentenário da Marinha do Brasil, seus restos mortais foram trasladados para o Jardim do Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, onde estão preservados em monumento próprio. A data 20 de maio ganha relevância simbólica especial — é a data da morte de Ana Néri e é, hoje, o Dia do Técnico de Enfermagem no Brasil.
📌 Memorize: Ana Néri morreu em 20 de maio de 1880. Por isso, o Dia do Técnico de Enfermagem no Brasil é em 20 de maio.
As datas comemorativas — 12 de maio e 20 de maio
Aqui está um ponto que cai em prova com altíssima frequência. Você precisa fixar com precisão.
12 de maio — Dia Internacional da Enfermagem (Dia do Enfermeiro no Brasil). Em homenagem a Florence Nightingale, nascida em 12 de maio de 1820. Foi instituído pelo Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN) em 1965. No Brasil, é também o Dia do Enfermeiro desde a década de 1960, com base no calendário do ICN. Atenção: no Brasil, o Decreto nº 48.202/1960 institui a Semana da Enfermagem entre 12 e 20 de maio — uma semana que integra simbolicamente as duas datas mais importantes da profissão.
20 de maio — Dia do Técnico de Enfermagem. Em homenagem ao falecimento de Ana Néri, em 20 de maio de 1880. A data é largamente celebrada pela categoria, e a designação “Dia do Técnico” é hoje a versão majoritária no calendário profissional. Algumas referências falam em “Dia da Enfermagem” para o dia 20, mas a interpretação consagrada e cobrada em prova é “Dia do Técnico de Enfermagem”.
🎯 Ponto de prova: Semana da Enfermagem (12 a 20 de maio) = começa no Dia do Enfermeiro (homenagem a Nightingale) e termina no Dia do Técnico de Enfermagem (homenagem a Ana Néri). É a estrutura simbólica do calendário profissional brasileiro. Decreto nº 48.202/1960 é o instrumento legal — bancas Cebraspe e Vunesp gostam do número.
A Escola de Enfermagem Anna Nery — o legado institucional
Como você viu no tópico anterior, em 1926 a Escola de Enfermeiras do DNSP, criada em 1923, foi rebatizada Escola de Enfermeiras Anna Nery, em homenagem póstuma à pioneira (que havia falecido em 1880, 46 anos antes da homenagem). Foi declarada escola-padrão pelo Decreto nº 20.109/1931 e, em 1937, foi incorporada à Universidade do Brasil — atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Hoje, a Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN/UFRJ) é unidade da UFRJ, oferecendo cursos de graduação, mestrado e doutorado em Enfermagem. É reconhecida como uma das mais importantes escolas da área no Brasil e na América Latina. A homenagem à pioneira de 1865 atravessou, portanto, três séculos.
🔍 Aprofundamento: existe também o Hospital Universitário Anna Nery, em João Pessoa (Paraíba), sem relação direta com a UFRJ, mas igualmente em homenagem à pioneira. Bancas regionais nordestinas (especialmente FCC e IDIB) podem mencionar o hospital. A homenagem dispersa-se por instituições várias — escolas, hospitais, ruas, prêmios — em todo o país.
Jurisprudência aplicável
Registre-se a inaplicabilidade (CLAUDE.md, Regra 10): o tema “Ana Néri e o pioneirismo brasileiro” é histórico-biográfico, não comportando tratamento jurisprudencial. A jurisprudência relevante para a profissão (STJ sobre supervisão privativa do enfermeiro; STF sobre constitucionalidade do Piso Salarial — ADI 7222 e ADI 7223) será tratada nos tópicos 01.4 e em toda a Aula 02. Aqui, a fundamentação é histórica.
Comportamento das bancas — IBFC
A IBFC trabalha com múltipla escolha, geralmente com quatro ou cinco alternativas, redação econômica e perfil eclético. Neste tópico, três armadilhas são típicas. Primeira: troca a Guerra do Paraguai pela Guerra da Crimeia (confusão direta com Nightingale) — uma das pegadinhas mais clássicas da história da enfermagem. Segunda: chama Ana Néri de “primeira enfermeira do Brasil” — expressão tecnicamente imprecisa, porque a profissão não existia em 1865; o termo correto é “pioneira da enfermagem voluntária” ou “pioneira da enfermagem brasileira”. Terceira: confunde a data 20 de maio (Dia do Técnico) com 12 de maio (Dia do Enfermeiro).
(IBFC, 2022, prova de Técnico em Enfermagem) — uma assertiva típica desta banca dirá: “Ana Néri é considerada a primeira enfermeira profissional do Brasil, tendo atuado durante a Guerra da Crimeia ao lado de Florence Nightingale.” — Item duplamente errado. Comentário: Ana Néri atuou na Guerra do Paraguai (1865-1870), não na Crimeia. E ela não foi “enfermeira profissional”, porque não havia profissão regulamentada no Brasil em 1865 — foi pioneira voluntária. A confusão com Florence é a pegadinha clássica.
(VUNESP, 2023, Prefeitura — Técnico de Enfermagem) — assertiva típica: “O Dia do Técnico de Enfermagem, comemorado em 20 de maio no Brasil, foi instituído em homenagem ao falecimento de Ana Néri, que atuou como enfermeira voluntária na Guerra do Paraguai (1865-1870).” — Item correto. Comentário: redação literal, marcação automática.
(CEBRASPE, 2019, EBSERH — Técnico em Enfermagem) — assertiva típica: “A Semana da Enfermagem, instituída no Brasil pelo Decreto nº 48.202/1960, é celebrada entre os dias 12 e 20 de maio, integrando o Dia do Enfermeiro (homenagem a Florence Nightingale) e o Dia do Técnico de Enfermagem (homenagem a Ana Néri).” — Item certo. Comentário: redação completa que articula as duas datas e o decreto. Quem estudou pelo Leão acerta sem hesitação.
🧩 Esquematização
Para fixar a biografia e o legado:
ANA JUSTINA FERREIRA NÉRI (1814-1880)
├── Origem
│ ├── 13/12/1814 — Cachoeira (BA)
│ ├── Família da elite baiana
│ └── Casamento (1837) com Isidoro Antônio Néri (oficial da Marinha)
├── Vida adulta
│ ├── Três filhos (Justiniano, Pedro Antônio, Isidoro)
│ ├── Viúva em 1844
│ └── Cuidado familiar nas duas décadas seguintes
├── Guerra do Paraguai (1865-1870)
│ ├── Carta ao presidente da Província (1865)
│ ├── Autorização pessoal de D. Pedro II
│ ├── Embarque em 8/9/1865 — Salvador
│ ├── Atuação em Corrientes, Humaitá, Assunção, Cerro Corá
│ ├── Hospital de campanha próprio (financiamento privado)
│ ├── Perdeu o filho Justiniano em combate
│ ├── Cuidou do filho Pedro Antônio (ferido)
│ └── Adotou dois órfãos paraguaios (Antônio e Isabel)
├── Reconhecimento (1870)
│ ├── Medalha Geral da Campanha
│ ├── Medalha Humanitária de Primeira Classe
│ ├── Pensão vitalícia da Coroa
│ └── Título de "Mãe dos Brasileiros" (D. Pedro II)
├── Morte
│ ├── 20/05/1880 — Rio de Janeiro
│ └── Translado em 2009: Hospital Naval Marcílio Dias
└── Legado institucional
├── 12/5 — Dia do Enfermeiro (Florence; ICN 1965)
├── 20/5 — Dia do Técnico de Enfermagem (morte de Ana Néri)
├── Semana da Enfermagem (12-20/5; Decreto nº 48.202/1960)
└── Escola de Enfermagem Anna Nery (1923 → 1926 → UFRJ)
⚠️ Pegadinhas de banca
Pegadinha 1 — “Primeira enfermeira do Brasil”. A expressão é tecnicamente imprecisa, porque a profissão de enfermagem só foi regulamentada no Brasil com a Lei nº 7.498/1986 (e formada como categoria sob modelo nightingaleano com a Escola Anna Nery, em 1923). Ana Néri é pioneira da enfermagem voluntária civil brasileira, não “primeira enfermeira” em sentido profissional. Bancas IBFC e Cebraspe armam essa armadilha. Redação típica: “Ana Néri foi a primeira enfermeira profissional do Brasil, registrada como tal em 1865.” — item errado em duas frentes (não havia profissão; não havia registro). Como identificar: se a expressão for “primeira enfermeira profissional”, desconfie automaticamente.
Pegadinha 2 — Confusão com a Guerra da Crimeia. Ana Néri atuou na Guerra do Paraguai (1865-1870), na América do Sul. Florence Nightingale atuou na Guerra da Crimeia (1853-1856), na península da Crimeia (Mar Negro). Ambas são ícones do cuidado em conflito armado, e bancas confundem propositalmente os dois conflitos. Redação típica: “Ana Néri atuou ao lado de Florence Nightingale durante a Guerra da Crimeia, prestando assistência aos feridos britânicos em Scutari.” — item errado. Como identificar: Ana = Paraguai (1865-1870, América do Sul, Império do Brasil); Florence = Crimeia (1853-1856, Europa Oriental, Reino Unido). Os dois conflitos têm distância de 12 anos e dois continentes.
Pegadinha 3 (bônus) — Trocar 12 de maio por 20 de maio. 12 de maio é o Dia do Enfermeiro (homenagem a Florence). 20 de maio é o Dia do Técnico de Enfermagem (morte de Ana Néri). Bancas trocam as datas com regularidade. Redação típica: “O Dia do Enfermeiro, no Brasil, é comemorado em 20 de maio, em homenagem à data do falecimento de Ana Néri.” — item errado. Como identificar: o dia do Enfermeiro é o da nascimento de Florence (12/5); o dia do Técnico é o da morte de Ana Néri (20/5). A semana entre as duas datas é a Semana da Enfermagem.
🛡️ FAQ — antecipação de dúvidas
Por que Ana Néri é considerada “pioneira” se ela não fundou escola, não escreveu tratado e não regulamentou profissão? Porque o pioneirismo dela está no gesto inaugural — uma mulher civil, da elite, voluntária, custeando do próprio bolso parte da ação assistencial em hospital de campanha, com duração de quase cinco anos, sem se valer de instituição religiosa nem de profissão preexistente. É o ato que rompe o limite entre cuidado doméstico e cuidado em hospital de campanha. Os marcos institucionais (escola, lei, profissão) viriam depois, mas precisariam de uma figura simbólica brasileira para ancorar a identidade da categoria — e essa figura é Ana Néri.
Ana Néri trabalhou ao lado de Florence Nightingale? Não. As duas nunca se encontraram, atuaram em guerras diferentes (Paraguai vs. Crimeia), em décadas diferentes (1865-1870 vs. 1853-1856) e em continentes diferentes. A confusão é frequente em prova justamente por causa do paralelismo simbólico entre as duas — ambas voluntárias, ambas em conflito armado, ambas reconhecidas pelo Estado depois.
A grafia “Ana” ou “Anna” é correta? As duas existem em documentos históricos. A grafia atualizada para a pessoa é Ana Néri (com “N” simples e acento agudo). A grafia preservada para instituições que a homenageiam — Escola de Enfermagem Anna Nery (UFRJ), Hospital Anna Nery, etc. — é Anna Nery, conforme o registro da época. Em prova, leia o objeto: pessoa = Ana; escola/hospital = Anna.
Por que a Escola Anna Nery foi rebatizada apenas em 1926, e não desde 1923 quando foi criada? A escola criada em 1923 chamava-se Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) — nome técnico, ligado à instituição estatal. Em 1926, com três anos de funcionamento, recebeu o nome Escola de Enfermeiras Anna Nery como homenagem póstuma à pioneira (que havia morrido em 1880). A escolha do nome teve, à época, dimensão patriótica — buscava enraizar a profissão, criada sob influência norte-americana, em uma figura simbólica brasileira.
O 20 de maio é “Dia da Enfermagem” ou “Dia do Técnico de Enfermagem”? Há referências de ambos os tipos na literatura. A leitura majoritária e cobrada em prova é Dia do Técnico de Enfermagem, em distinção ao 12 de maio (Dia do Enfermeiro). Algumas fontes mais antigas chamam o 20 de maio de “Dia da Enfermagem” em sentido amplo, mas isso entra em conflito direto com o 12 de maio. Para fins de prova, fixe 20 de maio = Dia do Técnico de Enfermagem.
🗒️ Atividade prática (estudo ativo)
Pegue papel e caneta e responda às perguntas a seguir antes de seguir adiante. Não pule esta etapa. O cérebro fixa muito mais quando você é forçado a recuperar a informação ativamente, em vez de apenas reler o texto.
Nível 1 — Conhecimento (9 questões)
1. Qual é o nome completo de Ana Néri?
2. Em que ano e em que cidade ela nasceu?
3. Em que conflito ela atuou como voluntária? Indique o ano de início e de término.
4. Em que data ela embarcou de Salvador rumo ao teatro de operações?
5. Que título honorífico D. Pedro II conferiu a Ana Néri após o retorno?
6. Em que data Ana Néri faleceu?
7. Em que ano a Escola de Enfermeiras do DNSP foi rebatizada Anna Nery?
8. Qual é o Dia do Enfermeiro no Brasil e em homenagem a quem foi escolhido?
9. Qual é o Dia do Técnico de Enfermagem no Brasil e em homenagem a quem foi escolhido?
Nível 2 — Compreensão (6 questões)
10. Por que é incorreto chamar Ana Néri de “primeira enfermeira do Brasil”?
11. Diferencie a Guerra do Paraguai da Guerra da Crimeia, indicando ano, local e quem atuou em cada uma.
12. Qual é a relação entre o Decreto nº 48.202/1960 e o calendário simbólico da enfermagem brasileira?
13. Por que se afirma que o pioneirismo de Ana Néri tem dimensão estatal, e não religiosa?
14. Qual a relação entre a morte de Ana Néri (20 de maio de 1880) e o Dia do Técnico de Enfermagem?
15. Como a homenagem póstuma a Ana Néri (rebatismo da escola em 1926) se conecta à origem norte-americana da Escola de Enfermeiras do DNSP?
Nível 3 — Aplicação (3 questões)
16. Em uma prova, lê-se: “Ana Néri foi pioneira da enfermagem profissional brasileira, atuando ao lado de Florence Nightingale durante a Guerra da Crimeia.” Identifique todos os erros e reescreva a assertiva corrigida.
17. A alternativa diz: “O Dia do Enfermeiro é comemorado em 20 de maio no Brasil, em homenagem ao falecimento de Ana Néri, ocorrido em 1880.” Marque certo ou errado e justifique.
18. Em uma questão, lê-se: “A Escola de Enfermagem Anna Nery, vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi criada em 1923 sob direção de Ana Justina Ferreira Néri, pioneira da enfermagem brasileira.” Identifique o erro factual.
Nível 4 — Análise (1 questão)
19. Argumente, em até dez linhas, por que o reconhecimento de Ana Néri por D. Pedro II — com medalhas militares, pensão vitalícia e título honorífico — é coerente com a tese, vista no tópico 01.2, de que a enfermagem brasileira tem origem fortemente vinculada ao Estado, ainda que a profissão como tal só viesse a se estruturar 53 anos depois (1923) e a se regulamentar 116 anos depois (1986). Use o conceito de “pioneirismo” para sustentar o raciocínio.
Respostas comentadas
1. ✅ Ana Justina Ferreira Néri. Algumas grafias trazem “Anna” e/ou “Nery” — na referência à pessoa, prefira a grafia atualizada.
2. ✅ 13 de dezembro de 1814, em Cachoeira, na Bahia.
3. ✅ Guerra do Paraguai (também chamada Guerra da Tríplice Aliança), de 1865 (oficialmente desde dezembro de 1864) a 1870.
4. ✅ 8 de setembro de 1865, partindo de Salvador rumo ao teatro de operações.
5. ✅ “Mãe dos Brasileiros”, expressão usada pelo próprio Imperador. Recebeu também a Medalha Geral da Campanha e a Medalha Humanitária de Primeira Classe.
6. ✅ 20 de maio de 1880, no Rio de Janeiro, aos 65 anos.
7. ✅ 1926. Antes desse ano, a escola se chamava Escola de Enfermeiras do DNSP (Departamento Nacional de Saúde Pública).
8. ✅ 12 de maio, em homenagem a Florence Nightingale, nascida em 12/05/1820. Instituído pelo Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN) em 1965.
9. ✅ 20 de maio, em homenagem ao falecimento de Ana Néri, em 20/05/1880.
10. ✅ Porque a profissão de enfermagem como tal não existia no Brasil em 1865 — só foi formada com a Escola de Enfermeiras do DNSP em 1923 e regulamentada pela Lei nº 7.498/1986. Ana atuou como civil voluntária, não como profissional registrada. O termo correto é “pioneira da enfermagem voluntária” ou “pioneira da enfermagem brasileira”.
11. ✅ Guerra do Paraguai (1865-1870, na América do Sul; Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai; Ana Néri atuou). Guerra da Crimeia (1853-1856, na península da Crimeia, no Mar Negro; Reino Unido, França, Império Otomano e Sardenha contra a Rússia; Florence Nightingale atuou).
12. ✅ O Decreto nº 48.202/1960 instituiu a Semana da Enfermagem, comemorada entre 12 e 20 de maio, integrando simbolicamente o Dia do Enfermeiro (homenagem a Florence) e o Dia do Técnico de Enfermagem (homenagem a Ana Néri). É o instrumento legal que organiza o calendário simbólico da profissão.
13. ✅ Porque o reconhecimento veio do Imperador D. Pedro II — não de instituição religiosa, não de academia médica, não de iniciativa privada. As medalhas militares (Medalha Geral da Campanha; Medalha Humanitária), a pensão vitalícia e o título de “Mãe dos Brasileiros” são honrarias estatais. Esse padrão de reconhecimento estatal antecipa a tese de que a enfermagem brasileira terá sempre forte vínculo com o Estado — tese confirmada em 1923 (Reforma Carlos Chagas) e em 1973 (criação do COFEN como autarquia federal).
14. ✅ Ana Néri morreu em 20 de maio de 1880. A data foi escolhida como Dia do Técnico de Enfermagem em homenagem ao seu falecimento. Isso explica por que a Semana da Enfermagem termina em 20 de maio — encerra com a memória da pioneira brasileira, depois de começar em 12 de maio com a memória de Florence.
15. ✅ A Escola de Enfermeiras do DNSP foi criada em 1923 sob influência norte-americana (Missão Parsons), com direção, currículo e financiamento dos EUA via Fundação Rockefeller. O rebatismo em 1926 — Escola de Enfermeiras Anna Nery — foi gesto patriótico de enraizamento simbólico nacional, escolhendo uma figura brasileira icônica para ancorar a identidade da escola. A escola permanece norte-americana no modelo, mas brasileira no nome.
16. ✅ Erros: (i) “primeira enfermeira profissional brasileira” — incorreto, porque a profissão não existia em 1865, e o termo correto é “pioneira da enfermagem voluntária”; (ii) “ao lado de Florence Nightingale” — incorreto, as duas nunca se encontraram; (iii) “Guerra da Crimeia” — incorreto, Ana atuou na Guerra do Paraguai. Reescrita correta: “Ana Néri foi pioneira da enfermagem voluntária brasileira, atuando como civil durante a Guerra do Paraguai (1865-1870).”
17. ✅ Errado. O Dia do Enfermeiro é em 12 de maio (homenagem a Florence Nightingale, nascida em 12/05/1820). O 20 de maio é o Dia do Técnico de Enfermagem (homenagem ao falecimento de Ana Néri). A assertiva trocou as duas datas e os dois homenageados.
18. ✅ O erro está em afirmar que a escola “foi criada em 1923 sob direção de Ana Justina Ferreira Néri”. Ana Néri morreu em 1880, ou seja, 43 anos antes da criação da escola — não pode ter dirigido a instituição. A escola foi rebatizada em homenagem póstuma a Ana Néri em 1926; a primeira diretora da escola, em 1923, foi Clara Louise Kieninger (norte-americana, da Missão Parsons), e a primeira diretora brasileira foi Edith de Magalhães Fraenkel, em 1931. Ana Néri nunca dirigiu nada relacionado à escola — é figura simbólica.
19. ✅ Resposta-modelo: o reconhecimento de Ana Néri por D. Pedro II é coerente com a tese estatal porque, ainda em 1870, antes mesmo de existir profissão regulamentada, é o Estado — encarnado no Imperador — que confere às ações de cuidado a chancela de relevância pública. As medalhas militares e o título de “Mãe dos Brasileiros” inscrevem o gesto privado de Ana no campo da memória nacional, abrindo caminho para que, 53 anos depois, o mesmo Estado (agora republicano, sob Carlos Chagas) crie a primeira escola oficial — e, 56 anos depois (1926), batize-a com o nome dela. O conceito de “pioneirismo”, aqui, não é mérito individual isolado: é primeiro passo institucional. Ana é pioneira porque seu gesto é inscrito pelo Estado como modelo simbólico da profissão que ainda não existia, e essa inscrição é precondição para que a profissão venha a existir, em 1923, sob configuração estatal. Em 1986, quando a Lei nº 7.498 finalmente regulamenta a profissão, o esqueleto simbólico já estava pronto desde 1870 — e isso explica a permanência do nome Anna Nery no centro da identidade da categoria.
📊 Gabarito rápido
- Nome completo: Ana Justina Ferreira Néri.
- Datas: nasceu em 13/12/1814 (Cachoeira-BA); morreu em 20/05/1880 (Rio de Janeiro).
- Atuação: voluntária civil na Guerra do Paraguai (1865-1870), em hospitais de campanha (Corrientes, Humaitá, Assunção, Cerro Corá). Embarque em 8/9/1865.
- Detalhes biográficos cobrados: perdeu o filho Justiniano em combate; cuidou do filho Pedro Antônio (ferido); manteve hospital de campanha próprio (financiamento privado); adotou dois órfãos paraguaios.
- Reconhecimento por D. Pedro II: Medalha Geral da Campanha; Medalha Humanitária de Primeira Classe; pensão vitalícia; título de “Mãe dos Brasileiros”.
- Calendário simbólico: 12/5 = Dia do Enfermeiro (Florence; ICN, 1965); 20/5 = Dia do Técnico de Enfermagem (morte de Ana Néri); Semana da Enfermagem (12-20/5; Decreto nº 48.202/1960).
- Escola: Escola de Enfermeiras do DNSP (1923) → rebatizada Anna Nery em 1926 → escola-padrão pelo Decreto nº 20.109/1931 → incorporada à UFRJ.
- Não confundir: Ana = Paraguai; Florence = Crimeia. Pessoa = “Ana Néri”; escola = “Anna Nery”.
- 🦁 Reforço final: Ana Néri é a pioneira da enfermagem voluntária civil no Brasil — não por ter inaugurado a profissão, mas por ter aberto, com gesto reconhecido pelo Estado imperial em 1870, o caminho simbólico que a Escola Anna Nery, quase sessenta anos depois, formalizaria como ofício de Estado.
✅ Encerramento
Você concluiu o estudo sobre Ana Néri e o pioneirismo brasileiro. No próximo tópico, 01.4 — Evolução da profissão até os dias atuais, vamos atravessar o século XX e chegar ao presente: a profissionalização das categorias, a multiplicação das escolas, o reconhecimento das especialidades pelo COFEN, as tendências contemporâneas (telessaúde, prática baseada em evidências) e o marco recente do Piso Salarial Nacional da Enfermagem (Lei nº 14.434/2022), com toda a discussão sobre constitucionalidade e aplicação prática. É a aula que conecta a história ao seu cotidiano profissional. Continue firme nos estudos.
Os personagens e situações apresentados nesta lição como cena de abertura são ambientados em contexto histórico real (Cachoeira, 1865, sob o Império de D. Pedro II). Casos verídicos — Ana Justina Ferreira Néri, D. Pedro II, Manuel Pinto de Sousa Dantas, e os filhos Justiniano, Pedro Antônio e Isidoro Néri Filho — são tratados como tais e baseiam-se em estudo de fontes públicas (acervo do Hospital Naval Marcílio Dias, biografias acadêmicas, documentação histórica e fontes oficiais do Ministério da Defesa).